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Joanot Martorell

Em 1468, morreu o cavaleiro valenciano mossèn Joanot Martorell, deixando «ventilado» (que pode interpretar-se como «definitivamente concluído») o romance de cavalaria Tirant lo Blanc, a cuja redacção se dedicara desde Janeiro de 1460, quando o escritor teria cerca de quarenta e cinco anos; dedicou-o ao infante D. Fernando de Portugal, que residiu em Barcelona em 1464 e 1465, pelo menos, na corte e séquito do seu irmão D. Pedro, o Condestável, «rei dos catalães», e do qual podia ser considerado presumível sucessor à coroa de Aragão, o que explica que o nosso romancista o tenha chamado «rei expectante».

Joanot Martorell morreu solteiro e sem filhos, e os seus papéis, sem dúvida por disposição testamentária, passaram para outro cavaleiro valenciano, evidentemente seu amigo, mossèn Martí Joan de Galba, de quem sabemos que tinha dois manuscritos de Tirant lo Blanc e que fez uma revisão do original de Martorell sem evitar a tentação de intervir e refazer as passagens que ele, com razão ou sem ela, considerava incompletas ou necessitadas de revisão. Galba decidiu publicar o romance do seu amigo Martorell, por ele revisto, através do meio então recente da imprensa (introduzida em Valência em 1474); com efeito, de acordo com os contratos assinados a 7 de Agosto e a 28 de Setembro de 1489, o impressor Nicolau Spindeler procedeu, em Valência, à impressão do Tirant lo Blanc, que ficou concluída a 20 de Setembro de 1490, sete meses depois da morte de Martí Joan de Galba.

O Tirant lo Blanc apareceu, então, como obra duplamente póstuma e muito depois do seu início: Joanot Martorell, o seu autor principal e decisivo, trabalhou nele a partir de 1460, ou seja, trinta anos antes da sua publicação, altura em que dificilmente se imaginaria que seria difundida em 715 exemplares impressos, processo de divulgação de uma obra literária que abria perspectivas inimagináveis.

É difícil e arriscado determinar a intervenção de Martí Joan de Galba no Tirant, talvez intensa a partir do capítulo 276, ainda que trabalhando sempre sobre um texto escrito por Martorell, que deve ter reformulado e ampliado com acrescentos seus de diversas dimensões. Parece que Galba utilizou fontes literárias que Martorell não teve em conta, como o famosíssimo The Travels, de Sir John Mandeville, ou a Història de Leànder i Hero, de Joan Roís de Corella. Galba exacerbou o retoricismo da prosa e encarou o problema da comunicação linguística quando no romance dialogam personagens de diferentes línguas, aspecto nunca tido em conta por Martorell, como ocorre em muitos romancistas antigos e modernos. O certo é que Martorell deixou um original, sem dúvida mais breve na quarta parte do livro, mas que concluía o romance, como revelam algumas afirmações da dedicatória que Galba fez imprimir tal como as tinha escrito. Por outro lado, nada sabemos da personalidade de Martí Joan de Galba que nos permita aproximar-nos da sua fisionomia.

O contrário acontece com a personalidade de Joanot Martorell. Nascido no reino de Valência, provavelmente em Gandia, entre 1413 e 1415, pertencia a uma linhagem do braço militar ligado aos Montpalau e aos March (Isabel, irmã do romancista, foi a primeira mulher do grande poeta Ausias March) e imerso em brigas cavaleirescas e controvérsias. Em 1437, Martorell desafiou para um duelo o primo Joan de Montpalau por este ter desonrado a sua irmã Damiata Martorell e recusar-se a casar com ela. Os dois primos trocaram entre si um epistolário insultuoso, provocador e engenhoso sobre este assunto em cartas de desafio divulgadas em todo o reino de Valência, até que os dois contendores se puseram de acordo em dirimir o problema num combate único até à morte perante um juiz competente e imparcial. Joanot Martorell foi então a Inglaterra e convenceu o rei Henrique VI a ser o juiz do combate cavaleiresco; todavia, Joan de Montpalau não compareceu no dia marcado, enviou procuradores para que solucionassem o assunto sem derramamento de sangue, intervindo também com uma atitude pacificadora a rainha Maria, de Castela, mulher de Afonso, o Magnânimo. Tudo se resolveu, algum tempo depois, com uma compensação económica que Joan de Montpalau pagou aos Martorell, mas Damiata ficou solteira durante toda a sua vida. A estada de Joanot Martorell em Inglaterra, entre Março de 1438 e Fevereiro de 1439 (certificada com documentos de origem inglesa), foi sem dúvida decisiva na formação do escritor e na concepção do que viria a ser o Tirant lo Blanc. Conheceu a fundo a corte inglesa, que tão bem descreve na primeira parte do romance, e leu livros da biblioteca do rei, como é o caso do romance de Guy de Warwick, que Joanot Martorell seguirá nos primeiros capítulos da sua narrativa.

Regressado a Valência, nunca mais terá uma vida sossegada: os seus vassalos de Murla e de Benibafrim (em Vall de Xaló, no marquesado de Dénia) tentaram livrar-se das suas obrigações para com ele e aquelas localidades ser-lhe-ão sequestradas; no Verão de 1442, foi desafiado para um combate pelo cavaleiro errante Filip Boïl, outro valenciano que alcançara prestígio em Londres, mas Martorell não quis e recusou-se a lutar com ele numa carta que acaba com estas palavras significativas: «Quem quer carne vai a um talho, e não a casa do lobo». Naquele mesmo ano, o nosso romancista foi desafiado, ainda, pelo jovem cavaleiro Jaume de Ripoll.

Está documentada uma viagem de Joanot Martorell a Portugal em 1443, onde deixou dívidas em dinheiro que pedira emprestado a uns judeus. Em 1444, o escritor vendeu os feudos conflituosos de Murla e Benibafrim a D. Gonçalbo d’Híxer, comendador de Montalbà, e o pagamento das quantias estipuladas produziu tão grandes divergências entre os dois, que Joanot Martorell e o seu irmão Jofre mandaram avisos de desafio a D. Gonçalbo; apesar das tentativas de concórdia e soluções amigáveis propostas pelo rei de Navarra (o futuro João II) e alguns nobres valencianos, o romancista desafiou o seu adversário, com cartas de insultos difamantes, para um combate até à morte, enquanto D. Gonçalbo tentava resolver o assunto pelas vias da justiça normal e acusava Joanot Martorell de difamação. Isto ocorria em 1450, ano em que é provável ele ter feito uma nova viagem a Inglaterra.

Pouco mais sabemos de Joanot Martorell. Em 1454, viajou para o reino de Nápoles; documentalmente consta que morreu no ano de 1468, não sabemos onde.

[Martí de Riquer, in «Introdução»]

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