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Guilleragues
Boileau decidiu um dia retratar Guilleragues: «Mestre na arte de agradar», disse ele, «não passou de um rapaz comilão com muito espírito, que teve amigos e viveu à custa deles por tudo ter esbanjado.» Anos antes dedicara-lhe o seu «Quinto Epíteto» e tinha-o começado com estes dois versos: «Espírito nascido para a corte e mestre na arte de agradar, / Guilleragues, o que sabe falar e calar-se.» Havia neste fim de frase uma alusão ao «mistério» das Cartas Portuguesas. […] Guilleragues era pelo baptismo Gabriel Joseph de Lavergne; mas quando se impôs na corte, quando chegou a altos e muito honrosos cargos, quando chegou à literatura, começou a querer que o chamassem pelo som reduzido à simplicidade aristocrática do Guilleragues. O seu pai, que era visconde de Guilleragues e notável figura de Bordéus, em 1630 morreu atacado por uma peste que não sabia diferençar o mais baixo povo dos grandes da sociedade francesa. Gabriel só era uma criança de dois anos. Tinha uma irmã ainda mais nova, e a sua mãe fez um luto de viúva grávida que teve um terceiro filho nascido sem pai. […] Este Guilleragues começava a fazer-se sugerir, e até a mostrar-se, como escritor. Não ia deixar uma obra extensa; mas os arquivos registam (como descobriu em 1926 o professor F. C. Green da Universidade de Cambridge) que o editor e livreiro Claude Barbin obteve em 1668 o privilégio real para a publicação de três obras suas: Valentins; Lettres portugaises traduites en français; Epigrammes et madrigaux. No entanto, por uma necessidade comercial convinha que estas Cartas Portuguesas traduzidas para francês surgissem com autor anónimo; que afastassem todas as hipóteses de ser tomadas por uma ficção. Em Janeiro de 1669, as cinco cartas da freira portuguesa eram oferecidas sem autor ao público, num francês pouco depois reconhecido como o de uma tradução de Guilleragues (que não sabia português); destinavam-se, com o seu bem cultivado mistério «de quem e para quem», a ser o maior êxito literário dessa época. Luís XIV ficou encantado com as palavras da freira que tão bem soavam em francês; em Outubro já Guilleragues era secretário da câmara de Sua Majestade, encarregado de redigir as cartas privadas do soberano, e até foi convencido a escrever a meias com o rei uma peça teatral que entreteve, diz o marquês de Bonnac, alguns serões da corte. […] em 1677, foi-lhe concedido o muito cobiçado posto de embaixador da França numa Constantinopla que ainda não era Istambul. Durante seis anos Guilleragues foi reconhecido como um exímio embaixador. Soube pacificar a complexa situação política daquilo que então se chamava Próximo Oriente. E em 1681, quando a esquadra francesa atacou piratas barbarescos que se refugiaram no porto de Chios então dominado por otomanos, e houve um período difícil entre a regência de Trípoli e a França, Guilleragues revelou uma grande eficácia como mediador entre as duas partes. Mas este prestígio foi inesperadamente ferido pelas consequências do ataque de apoplexia que em 4 de Março de 1685 pôs fim à sua brilhante carreira diplomática. Guilleragues morreu e foi enterrado no Palácio de França, hoje conhecido em Istambul por São Luís dos Franceses. Actualmente desconhece-se a localização da sua sepultura. [Aníbal Fernandes] ARTIGOS RELACIONADOS
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