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Jules Supervielle

Um estranho deus, amigo da França, pairou em tempos sobre o Uruguai e ofereceu-lhe três escritores de bem marcada singularidade. Fez nascer em 1860 Jules Laforgue; oito anos depois o Isidore Ducasse que foi literariamente Conde de Lautréamont; e por último, em 1884, Jules Supervielle.

[…]

Jules Supervielle, esse, teve um pai com o mesmo nome que foi para o Uruguai, chamado pelo seu irmão Bernard que o queria a dirigir um banco onde imperava o seu capital e que abria uma sucursal em Buenos Aires. Em 1884 nasceu em Montevideo o futuro poeta; e apenas com oito meses de idade fez com os seus pais e os seus tios uma viagem de férias à Europa; mas não era de todo previsível que uma água maldosa, envenenada por azebre num recipiente de cobre, com a curta distância de oito dias matasse os seus pais.

Órfão duplo aos oito meses, ainda sem saber falar, ficou à guarda de uma avó. Os seus tios regressaram ao Uruguai mas «recuperaram-no» em 1886, fazendo-se passar por seus pais. Ele próprio nos dá a saber isto: «Só alguns anos mais tarde uma parente minha me mostrou num álbum os retratos daqueles que me tinham dado à luz do dia. Não conheço mais bela expressão.»

[…]

Este Supervielle, celebrado poeta francês com sentimentos nascidos do sonho e do inconsciente, com uma fantasia nostálgica, privou entre muitos outros com Valéry, Gide e Michaux; pôde viver uma vida remediada, e receber os elogios que tanto alimento davam à sua forma de estar na vida e nas letras.

[…]

Mas a libertação de Paris, livre do jugo germânico, dá uma favorável ideia ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Uruguai. Este Eduardo Rodríguez Larreta, que é amigo e admirador de Jules Supervielle, oferece-lhe em Paris o cargo de diplomata uruguaiense. A sua colaboração mal paga na Lettres Françaises que Roger Caillois e Victoria Ocampo publicam na Argentina, na Valeurs que entretém os franceses do Egipto, os pouco rentáveis direitos dos poemas que são publicados na Suíça e na Argentina, dos contos que aparecem na Quetzal do México, passam a um valor secundário. Supervielle, de novo em Paris e no Hôtel Régina da rua de Rivoli, olha para uma carteira que volta a saber pagar-lhe a vida como ele gosta de vivê-la.

Mas a sua saúde declina. Arritmias cardíacas, perturbações pulmonares atrapalham o trabalho do diplomata, diminuem-lhe a criação literária. O mundo retira-se de mim com passinhos mansos, diz ele num verso; e acrescenta: Sou como um país abandonado pela guerra E a sentir-se separado de todo o universo.

Neste declínio surgem prémios, é-lhe pendurada no peito a Legião de Honra, a Nouvelles Littéraires chama-lhe «príncipe dos poetas».

Morre em 17 de Maio de 1960 com setenta e seis anos. E Etiemble encontra-lhe um sinal particular: «Nunca recebeu uma carta anónima.»

[Aníbal Fernandes, «Apresentação», A Desconhecida do Sena — E Outras Histórias]

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