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Afonso Lopes-Vieira

O escritor de «Marques» era um jovem com vinte e seis anos. Tinha vindo de Leiria (onde nascera em Janeiro de 1878) para uma Lisboa sentida com as larguezas de um lar de advogado bem estabelecido na cidade. Uma convivência assídua com Leite de Vasconcelos tinha-lhe dado Cultura e revelado os Clássicos. Depois, numa Coimbra onde o Direito já se escondia, secundário, atrás de um muito evidente poeta, foi marcado pela saudade e pelo orgulho de pertencer «à última geração de rapazes, a que contemplou a fluida alma do Rio e entreviu a Leonor, formosa e não segura». Meu Adeus, de 1900, foi a despedida em poema à cidade onde tinha vivido de capa e batina e que o tinha feito «doutor».

O escritor, agora lisboeta, foi incitado a viver uma carreira de advocacia (por insistência do seu pai) e chegou a ser advogado síndico da Câmara Municipal; mas, muito depressa aborrecido de litígios tribunalícios, afastou-se deles para ser redactor da Câmara dos Deputados; e em 1916 tudo isto abandonou para ser tão só o que gostava de ser, intelectual, leitor e poeta, aquilo que lhe preenchia a vida.

Lopes-Vieira, em Lisboa, foi morar na Mouraria. O bairro era típico, era popular, rodeava-o de um mundo que muita da sua poesia evocava… mas ele, Afonso, morava num palácio: o Palácio da Rosa. E tinha outra casa em São Pedro de Moel que lhe chegava da família, com um difuso ruído de mar que noite e dia por toda ela soava como uma concha encostada ao ouvido: a «casa-búzio», dizia ele, a casa que hospedava com largueza e simpatia amigos, homens de letras, músicos e pintores. O poeta, com esta alternativa domiciliária começou a viver os dias de frio em Lisboa e os de calor na «casa-búzio». E também fazia viagens, muitas para a época, as que lhe mostravam a Espanha, a França, a Itália, o Norte de África, o Brazil e até Luanda, onde foi ler uma conferência a que deu o título A Fé e o Império.

[…]

Mas este poeta, impregnado de um nacionalismo militante, não conseguiu aprovar o patriotismo soprado ao país pelo ditador Salazar e que ele apelidava de «patrio-tolismo».

[…]

Durante toda a vida avesso a homenagens, em 14 de Fevereiro de 1920 cedeu ao grau de Grande Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant’Iago de Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico. Mas foi, em Março de 1921, detido e interrogado durante horas no Governo Civil de Lisboa por ter publicado um folheto com o poema Ao Soldado Desconhecido (Morto em França), que condenava a participação militar portuguesa na Primeira Guerra Mundial.

Lopes-Vieira teria mais vinte e seis anos de vida e cerca de trinta títulos a acrescentar à lista das suas obras. Pouco tempo antes de morrer foi convidado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra para reger um curso de Literatura Portuguesa, convite que não pôde aceitar, devido ao mau estado da sua saúde. Morreu na madrugada de 25 de Janeiro de 1946.

 

[Aníbal Fernandes, «Apresentação», «Marques» (História de Um Perseguido)]

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