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Joë Bousquet

Joë Bousquet (pseudónimo de Joseph Jean Théophile) foi um escritor deitado; durante trinta e dois anos deitado.

Tinha nascido em Narbonne, em 1897; e a sua adolescência nem sempre regida pelos melhores princípios, o seu temperamento agressivo, a sua sexualidade exigente, frequentadora assídua de casas de passe, a todos diziam que ele dificilmente se sujeitaria às disciplinas de um normal emprego. O seu pai, médico em Narbonne e com uma reconhecida respeitabilidade social, preocupava-se. Era pouco previsível que esta vida agitada de mauvais garçon marginal e estroina tivesse a servi-la uma inteligência e uma personalidade intensamente seduzidas pelos mundos da filosofia e da poesia. O discurso de Joseph Jean Théophile esquivava-se, movido por esta sedução, a todas as vulgaridades verbais; as suas palavras, se o interlocutor lhe merecesse o esforço de um salto para esse outro mundo onde ele reinava entre afirmações obscuras, vagueavam por uma realidade secreta que raramente encontrava um bom entendedor.

[…]

Em 1916, com dezanove anos, Joseph Théophile foi considerado apto a defender o seu país. E em dois anos de batalhas mostrou uma audácia capaz de impressionar generais e de lhe pendurar no peito uma medalha militar; capaz de fazê-lo subir rapidamente a oficial — e de o apontarem como o destemido tenente Théophile do 156.º regimento de infantaria. Tudo parecia obedecer a um inegável êxito quando… em 27 de Maio de 1918… com aquela guerra de quatro anos a dar os últimos suspiros, num combate de Vailly-sur-Aisne uma perversa bala alemã se alojou num mau ponto do seu tórax e fez estragos que o paralisaram da cintura para baixo e o tornaram sexualmente impotente.

Joseph Théophile percebeu que o destino ia deitá-lo sem alternativas num leito. A sua irmã Henriette cuidava dele estendido ou, quando muito, sentado na cama, rodeado de livros e papéis; numa clausura raramente quebrada com passeios no carro do seu cunhado.

Théophile sentiu-se com as razões do suicídio; mas enfeitadas filosofias e poesias souberam transformar-lhe a desgraça numa reclusão redentora; as janelas do seu quarto tiveram — exigência sua — dia e noite as persianas corridas para o universo se concentrar naquele espaço onde o Joë da literatura tinha decidido sonhar.

[…]

Sentado durante trinta e dois anos numa cama, a amar sem ser amado, Bousquet morreu. Era o dia 28 de Outubro de 1950.

 

[Aníbal Fernandes, «Apresentação», Ela Passava, Azul e Loira]

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