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Pierre Girard

Girard tinha nascido no ano 1892 em Genebra; e depois de uma infância bem comportada e estudos no College Calvin com todas as chatezas de um ensino oficial, aos vinte e sete anos libertou-se delas para se meter, por fatalidade familiar, na casa de câmbios paterna. Mas já era, quando começou a trocar francos suíços por moedas estrangeiras e vice-versa, um assumido escritor publicado, autor de La Flamme au soleil, Philibert Lorme chef-éclaireur e dos poemas de Mon royaume est en fleurs. E depois de muitos câmbios, quando a morte do seu pai o incitou dezasseis anos mais tarde a persistir no ramo, fez-se cambista-proprietário a funcionar naquela mesma casa que passou a chamar-se Gipaco (diz-se ou inventa-se que o seu Gi era o de Girard e o seu paco de opaco); o escritor Girard já tinha nessa altura publicados mais oito títulos, entre eles Lord Algernon.

Este dia-a-dia de câmbios prolongou-se por mais dez anos, até à decisão drástica de 1945: Girard ia ser unicamente escritor e fecharia, sem apelo nem agravo, surdo a todos os conselhos, as portas do seu Gipaco.

Foi uma actividade literária a tempo inteiro, que ainda mais intensa se fez. Instalado em Genebra, na Genebra que é cenário de quase todas as suas ficções, Girard sobressaiu no panorama literário da sua Suíça e um pouco menos no da França, a mostrar-se como um singular escritor, um singular humorista da Suíça romanda.

[…]

Pierre Girard soube manter no seu país um prestígio literário que em 1951 fê-lo chegar ao Grande Prémio da Literatura de Genebra. Só teria mais cinco anos de vida. E houve, no momento da sua morte, vozes naquele país muito escutadas que o celebraram; por exemplo Daniel Magetti, professor da Universidade de Lausana, a lembrar que ele «mostrava num grau pouco vulgar um tom pessoal, uma divertida distância, uma garantida elegância»; e Henri de Ziegler, da Universidade de Genebra, a chamar-lhe «escritor realmente inimitável».

Mas estas frases, estas aproximações, estão longe de captá-lo no seu sonambulismo vertido graciosamente sobre uma Genebra com verdades que escapam aos tolhidos pelos limites da realidade convencional. Francis de Miomandre afirmou que «a Natureza precisou de muito tempo para criar um ser como ele, leve como um elfo, enternecedor e independente, subtil e muito simples, dotado do misterioso poder de projectar sobre as coisas mais banais da vida uma luz de doçura e magia.»

Precisou de muito tempo mas criou-o em 1892; deu-lhe, somítica, só sessenta e quatro anos de vida, e matou-o em 28 de Dezembro de 1956.

[Aníbal Fernandes, «Apresentação» de Lord Algernon]

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