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O QUE É POESIA?
09-09-2014
“O que é poesia?”, pergunta Sousa Dias. A ausência do artigo é significativa: trata-se de saber o que é “poesia” e não “a poesia”. Parece um propósito menos ambicioso, mas é o contrário. Determinar o que é “a poesia” tem qualquer coisa de projecto metafísico e nebuloso; estabelecer o que é “poesia” é um exercício pragmático e útil. Tentemos resumir as teses, frequentemente densas, de Sousa Dias, filósofo da galáxia deleuziana, aqui bastante influenciado pelo ensaísmo minucioso de Jean-Luc Nancy. A primeira tese tem a ver com o poema enquanto poética, isto é, enquanto resposta à questão “o que é poesia”. Embora muitos poetas escrevam “artes poéticas”, o ensaísta cita Manuel António Pina, que se sempre se mostrou céptico quanto a esse olímpico auto-conhecimento. Existe uma espécie de “não-saber” no poeta, e até no próprio poema, de modo que até o poema mais “transparente” supõe uma certa opacidade. Sousa Dias assevera, de modo provocatório, que um poema nada diz, nada significa, não quer dizer nada, não tem nada para dizer. Isto porque as ideias do poema nascem das palavras do poema, não as antecedem. E essas ideias-palavras resistem ao mundo, ao discurso sobre o mundo, e até ao discurso sobre o poema. Trata-se da poesia como enigma, não como explicação. O segundo argumento defendido neste breve conjunto de ensaios diz respeito ao vivido e à experiência, sensibilidades que têm dominado, com alguns hiatos, a poesia portuguesa. Sousa Dias, usando o exemplo de Ruy Belo, contesta essa visão ingénua. Por exemplo, a quase-narratividade de Belo não uma transposição do quotidiano visível mas um modo de desvendar a dimensão invisível de um quotidiano. A poesia não é uma estetização do vivido, nem um subjectivismo, mas um conjunto de sensações progressivamente impessoais, des-subjectivadas, de modo a que até os poemas mais confessionais são transmissíveis, porque não estão dependentes do “eu” original. A linguagem é o terceiro elemento desta argumentação. Como outros autores têm sublinhado, a poesia é uma língua contra a linguagem, contra a linguagem comum, comunicativa; a poesia é outra língua, que não respeita as normas sintácticas, semânticas, nem as fórmulas estafadas ou os clichés. Inventa por isso sequencialidades e combinações novas, não arbitrárias mas rigorosas, trabalhadas. O que é poesia? É uma linguagem contra os limites da linguagem. Uma tentativa de dizer aquilo que talvez não possa ser dito. Pedro Mexia, Público online, 9 de Setembro de 2014 |
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