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EMMANUEL RHOIDES, A PAPISA JOANA
26-08-2014

Desta vez seja-nos permitido começar pelo tradutor. “Conheci” Aníbal Fernandes há vinte e poucos anos, era eu estudante. “Conheci-o” através das traduções que fazia para a saudosa Hiena, e era uma alegria sempre que a pequena editora lançava algum novo título. Marcelo Proust, Ezra Pound, T. S. Eliot, Antonin Artaud, Frederico Nietzsche, Georges Bataille, Franz Kafka e muitos outros nomes por ali passaram. E eu, e outros, ficámos a conhecer alguns graças ao trabalho de Aníbal Fernandes. Extinta a editora, voltei a encontrá-lo na Assírio, onde nos brindou com Honório de Balzac, por exemplo. Agora, e quando aquela editora é uma pálida sombra do que foi, este senhor continua a oferecer-nos a sua erudição e talento na Sistema Solar. E desde que surgiu, há uns três anitos, já lançou cá para fora Henry James, Irène Nemirovsky, Georges Bataille, Victor Hugo e outros que tais, num catálogo que já vai a caminho dos trinta títulos. Muitos deles, mais uma vez, pela mão de Aníbal Fernandes que, discretamente, tem vindo a realizar este trabalho excepcional. E, como outros, longe dos holofotes.

 

Uma das obras mais recentes saída através desta chancela é este A Papisa Joana. Escrito por Emmanuel Rhoides, autor do século XIX, é uma deliciosa incursão no mito, relatando-nos as peripécias daquela que haveria de ser coroada papisa, de acordo com a lenda. Numa altura em que nos deparamos com secções próprias nas livrarias dedicadas ao romance histórico, as mais das vezes de qualidade mais do que duvidosa e em que a investigação é pouco melhor (?) do que zero – já para não falar na narrativa miserável –, é uma alegria encontrar estes clássicos novecentistas, época em que é sabido ter este género de literatura encontrado a sua máxima expressão, no que diz respeito à qualidade. Devo dizer que nunca tinha ouvido sequer falar deste senhor, mas pelo que li vale bem a pena, e pena é que seja um dos poucos nomes de relevo na literatura grega da época. Porque escreve com uma sensibilidade invulgar, um humor refinado, um esprit de finesse mais francês (quando o têm) do que helénico. Este senhor representa bem o espírito despreocupado e solar do homem mediterrânico, o qual consegue coisas notáveis quando quer – e veja-se como Chesterton o elogia numa obra recentemente lançada entre nós e da qual falarei aqui proximamente (O Sobrenatural é Natural, edição da Aletheia).

 

Andam por aí, entre essa plêiade de romances históricos ou pseudo, alguns sobre a “papisa Joana”. Não sei se quem os escreveu conhece esta versão do mito. Se não, talvez devesse. Porque, em caso afirmativo, poderia pensar duas vezes antes de se aventurar à escrita. Ou poderia aprender qualquer coisa que lhe seria útil futuramente. Agora, superar a leveza, a alegria, a perfeição estética deste escrito é que não conseguiria. Porque o que temos aqui é a versão definitiva e final do mito em forma ficcionada. Uma pequena e requintada maravilha.

 

Cinco estrelas.

 

João Vaz

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