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«O Mundo Gay de António Botto», por Eduardo Pitta
15-07-2018

Como escrevi na introdução de Canções e Outros Poemas (2008), António Botto foi sempre um caso mal resolvido. Passados quase 60 anos da sua morte, atropelado no Rio de Janeiro em 1959, surge o estudo que fazia falta: O Mundo Gay de António Botto. Não é despiciendo que Anna M. Klobucka o tenha feito - Botto foi, nos anos 1920, um percursor da poesia de inscrição homossexual. Verdade que Wilde e Gide, de tradições literárias fortes, eram lidos e alvo de controvérsia. Botto contou quase só com Fernando Pessoa, que publicou a segunda edição de Canções, escreveu ensaios em seu louvor e, por interposto Álvaro de Campos, invectivou os universitários de Lisboa por ocasião do auto-de-fé de 5 de Março de 1923 (exemplares de Canções foram apreendidos pelo Governo Civil e queimados no Rossio). Além de Pessoa, Aquilino Ribeiro foi o único a repudiar publicamente a campanha ultramontana.

Anna M. Klobucka faz um minucioso tour d'horizon à vida do poeta, sem esquecer as origens humildes, a conhecida "propensão para a autoinvenção ficcionalizante", a celeuma das traduções, as amizades virtuais, o casamento, a ida para o Brasil, a conversão religiosa, a doença e a morte. Os factos são dissecados à luz do que Klobucka considera ser o perfil queer do poeta.

Tal como acontece com a obra de Florbela Espanca, a de Botto tem sido (apesar dos encómios de Pessoa, Régio e Sena) subestimada. Fossem autores de expressão inglesa e seriam ícones dos movimentos feministas e LGBTI. Klobucka não o diz desta forma, mas a sua análise, muito próxima da close reading, ajuda a perspectivar Botto sob enfoque gay/queer. Indispensável.

 

Eduardo Pitta, Sábado, 15 de Julho de 2018

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