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«O maior grito pode ser um silêncio: Dois génios em correspondência de leitura obrigatória», por Beja Santos
31-01-2019

Gatos comunicantes, correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny, Sistema Solar, 2019, é a segunda edição de uma epistolografia que desvela um génio da poesia e outro da pintura, tudo tecido com admiração, gratidão, um púdico afeto mas que transparecia numa paixão incondicional tanto no que Cesariny sobre ela escrevia como no desvelo com que Vieira da Silva o tratava, sempre agradecida pelos cuidados do poeta. Em modo de apresentação, escreve José Manuel dos Santos que as cartas dos dois “são um laboratório de fusão nuclear, um teatro de vozes ao crepúsculo, um acelerador de partículas, uma gare de aterragem de naves especiais. As cartas dele: concretas, agitadas, minuciosas, violentas, precisas, amargas, suplicantes, exatas, indignadas, altivas, informativas, assassinas, culpadas. As cartas dela: diretas, sonhadoras, subtis, sensíveis, justas, concentradas, solidárias, aflitas, solitárias, agradecidas, elegantes, discretas, assustadas, humildes, perplexas, inocentes”. É de facto uma carta de ventos para dois itinerários, mais de três décadas em que o poeta a exalta e vai relatando o que faz, o que projeta, as viagens, o que está a ser publicado, como pretende estudar a artista que se impôs como figura grada da Segunda Escola de Paris; e ela põe em cena o seu mundo de cumplicidades, de preocupações, a intimidade com Arpad Szenes, os seus gatos, o itinerário das suas exposições, os amigos portugueses que ela acolhe em Paris, desvanecida. Os estudos preliminares de Sandra Santos e de António Soares asseguram ao leitor por onde passam os marcos miliários desta amizade, as linhas de identidade, o processo turbilhonante de toda esta escrita feita de confissões, de relatórios de trabalho, projetos, até rezingas.

E de modo fulgurante, a poesia dele, segue excerto:

 

“ó vieira das silvas dos teus cabelos

presos à dança do fogo e do ar

por isso enfim as mãos repletas de água para a temível passagem do navio

que fantasticamente flutua a teu lado (…)

 

Minha rainha negra para um cavaleiro húngaro

(…)

minha nossa senhora da vitória

que corre o espaço sem morada certa

Ofélia roubada a Hamlet Inês de Castro Szenes

pelo poder da sucessão infinita

e pela força do sacrifício total

quando se abre uma porta como o inferno

e o invisível te procura na sala

para que ilumines todos os seus portos

e todo o seu amor de eternidade”

 

Com timidez, ela responde ao seu querido Mário: “Confesso que quase passei os olhos por cima do seu poema. Eu não sei se mereço tais coisas… belas. Fico sempre na dúvida. Mete-me medo ler o que diz. Que responsabilidade, que terror. Mas gosto muito de o ter recebido assim na sua forma inicial e escrito em papel pautado”.

Estamos em 1966, Cesariny vai palestrar sobre a obra de Maria Helena da Silva, maior deslumbramento não pode haver, arranca tonitruante, é wagneriano: “Respondendo à poesia descoberta por Rimbaud no século passado, a arte abstrata não pensa com os sentidos. Quando muito, admite-os como parentes pobres à mesa do Imaginável. Fernando Pessoa, último drama em gente colocada à porta de todas as revoluções, disse-o pela primeira vez entre nós: ‘Cansa sentir quando se pensa’… Que dilema! Ou pensar ou sentir, que é como quem diz: ter ou ser, haver ou imaginar. Que eu saiba, apenas duas consciências poéticas nascidas em Portugal e coincidindo na modernidade ultrapassaram este dilema arruinando os seus fundamentos. A primeira é Helena Vieira da Silva, nascida em 1908, a segunda António Maria Lisboa, nascido em 1928. Entre estas duas datas, ficam os nascimentos de alguns grandes, como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, [um pouco] reduzidos”. Admite-se que esteja a falar sobre artes plásticas, mas a tessitura é largamente poética, basta exemplificar: “A entrada para o labirinto: a cada canto e em parte alguma, tomamos por um carreiro, a perspetiva volta-se contra nós, como um ser muito íntimo, e quando nos agarramos à aparência de uma casa, de um livro, de um portal, de uma ponte, tal livro vem dizer-nos que o alfabeto é de todas as linguagens possíveis, e mesmo as impossíveis a porta toma o sentido da esfera, a casa e a ponte dão para si próprias, são objetos suspensos do espaço”. Em tom confessional, Cesariny considera Arpad o seu poeta preferido. É intensamente perguntador, não quer que lhe escape um só catálogo da sua musa, em contrapartida, é um permanente noticiário, que mudou de ateliê, conversam ambos sobre gatos, dá conta à mestre da abertura do Centro de Arte Moderna, comentários com desconsolo, ela responde falando em gatos comunicantes, a correspondência é verdadeiramente íntima, envolve Arpad e Guy Weelen, um colaborador de Vieira da Silva, os gatos entram a valer como referências e desenhos. Poemas belíssimos vêm à tona, como a casa de Arpad Szenes, ali se diz: “Viajar sem descanso, de uma a outra ponta do horizonte. Porque foi dito que o que está em cima é o espelho de tudo o que está em baixo, e o que está em baixo é o espelho de tudo o que está em cima. E que a ponta central dessa linha que não começa nunca e nunca se acaba tem um só nome: o meu”. Até se chegar à dolorosa carta de Vieira da Silva para Mário, em 1985, Arpad morreu, ela está sem gato, sem rumo, vive só no presente, sem passado nem futuro: “Esta carta absurda só se pode escrever ao Mário. Mas para mim o Arpad está sempre”.

Correspondência de leitura obrigatória, da genialidade precisa-se sempre.

 

Beja Santos

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