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«A Forma Custa Caro — Exercícios Inconformados», de Golgona Anghel, por Miguel Zenha
23-07-2024
A Forma Custa Caro consiste num conjunto de onze ensaios que medem o pulso a uma certa contemporaneidade, traçando para o efeito um ponto de situação agudo que incide principalmente sobre literatura. Nesse sentido, o livro privilegia poetas portugueses: de Fernando Pessoa, Mário Cesariny, Ruy Belo e Al Berto — Golgona Anghel tem monografias sobre este último, designadamente Eis-me Acordado Muito Tempo Depois de Mim — uma biografia de Al Berto (Quasi Edições, 2006) e Cronos Decide Morrer — leituras do tempo em Al Berto (Língua Morta, 2013) — a poetas vivos como Rui Pires Cabral e Pedro Mexia. Organizado em quatro partes — «Forma e formato»; «Exercícios inconformados»; «Forma e performatividade» e «A forma em ruínas» — o livro propõe-se problematizar a ideia de legitimação da literatura. […] Ora, os melhores textos de A Forma Custa Caro correspondem a manifestações precisas do problema que o livro escolheu pensar, ou seja, são tentativas de reposicionar o par legitimação e literatura. «Cesariny: grandes mitos/heróis menores» é um ensaio admirável sobre o autor de Pena Capital, em especial sobre a maneira como Cesariny lê Pessoa e por isso não deixa também de ser sobre a história da literatura enquanto critério crítico. Considerando que Pessoa significa «uma função repressiva evidente» (p. 21), Golgona Anghel elege os livros Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, numa primeira fase, e O Virgem Negra, numa fase mais enfática, como casos emblemáticos de uma forma eficaz de reagir ao «perigo de “canonização” de Fernando Pessoa.» Cesariny é importante porque tem consciência de que «é urgente fazer descer o mito, o Fantasma, da altura da sua essência (...) ao riso, só» (p. 24), ou seja, «é preciso cavar mais fundo, rir mais alto» (p. 25). […] Golgona Anghel é oportuna, congruente e convincente, o que não significa que tenhamos de concordar com todas as hipóteses aduzidas por si — não acho, por exemplo, que o juízo estético esteja obsoleto enquanto modo descritivo, mas, de facto, o ambiente actual nos estudos literários é-lhe bastante adverso. Um dos méritos deste livro é não querer ser polémico só por ser polémico, ou seja, a autora não engendra artificialmente um problema para depois ir distribuindo calmamente repreensões. O que A Forma Custa Caro faz com desvelo é dar conta de certas mudanças de aspecto na relação entre a crítica e a literatura, bem como entre poetas. Como se disse, a conjuntura não é perfeita, mas daí não se segue nem um azedume fácil e previsível nem uma infantilização do pensamento. Estamos perante «exercícios inconformados» porque será essa a forma mais eficaz de legitimar a literatura: não necessariamente de a celebrar, ou pelo menos não de a celebrar abastardando a crítica, mas reconhecendo que a literatura é uma maneira específica de estar no mundo. Específica ao ser contingente, e assim «a forma custa caro» porque essa contingência, essa imprevisibilidade manifestada na denúncia de leis eternas que pretenderiam reger literatura e crítica, consiste em levar a sério certas posições. E é aí que Golgona Anghel quer estar, assumindo resolutamente uma ideia, exigindo a si mesma a honestidade sem remorsos de quem considera que a crítica dá conta e participa daquela «experiência nova» trazida pela literatura. Os autores comentados em A Forma Custa Caro dizem-nos que não há pressupostos, instâncias e locais permanentes e completamente seguros em literatura. São por isso exemplares, tal como este livro o é, numa capacidade em suscitar um questionamento por vezes implacável das maneiras como lidamos com objectos literários. Assim, o «custo» corresponde ao acordar de certas faculdades, ou melhor, a um exercício imoderado do pensamento.
Miguel Zenha, Forma de Vida, 8 de Julho de 2024 Referência: Anghel, Golgona. A Forma Custa Caro — Exercícios inconformados. Lisboa: Documenta, 2018. |
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