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«A Verdade e a Mentira», por José Riço Direitinho
10-09-2024

«Ficção e biografia quase sempre andaram juntas nas narrativas do escritor austríaco Thomas Bernhard (1931-1989), como se ambas se completassem e participassem do grande cenário da sua escrita enquanto arte. Essa relação íntima esteve sempre presente nos romances que se seguiram ao “ciclo autobiográfico”, publicado com o título Autobiografia (Documenta, 2014). Derrubar Árvores — Uma Irritação, agora reeditado depois de esgotado há mais de duas décadas, é também um bom exemplo desse “casamento” entre ficção e biografia.

Há em Bernhard sempre um regresso cíclico à memória, à lembrança dos acontecimentos (por vezes, com demasiada exactidão cronológica), regresso que surge sempre disfarçado de ficção e que assim lhe permite encenar magistralmente a sua arte. A ideia de desvendar uma existência, a própria, no caso presente, é para Bernhard um acto sempre condenado ao fracasso. A memória pode ser fiel à cronologia dos acontecimentos, aos exactos acontecimentos de acordo com a verdade, pode até corresponder ao desejo da verdade, às lembranças da noite antiga, mas aquilo que quem escreve (e julga que vai contar) é já por si, e de maneira sempre inevitável, algo completamente diferente daquilo que efectivamente aconteceu, e por isso um “aglomerado de deturpações e de mentiras”. A vida inteira foi uma prolongada tentativa em que ele nunca desistiu de transmitir a verdade, mas a verdade, para Bernhard, é intransmissível, e somos no fim forçados a aceitar que as descrições que fazemos de objectos e de acontecimentos reais não são a verdade, não se diz tudo, não é possível dizer tudo.

[…]»

 

José Riço Direitinho, «Leituras», Público, 30 de Julho de 2024.

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