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«DÁ-ME UM LUGAR», por Maria Etelvina Santos
25-11-2025

DÁ-ME UM LUGAR

eu deslumbro-me quando o tempo se suspende,

e me permite parar a contemplar o espaço sem tempo.

Maria Gabriela Llansol

 

I.

Michel de Montaigne relata numa carta o momento em que Étienne de La Boétie se despede dele, fazendo-lhe um pedido meio enigmático: «Dá-me um lugar», é a última frase que repete ao seu grande amigo.

Sempre me impressionou este pedido, por ser uma frase poética na sua essência: reveladora do que não diz, oferece ao leitor um mundo de possibilidades, ficando com ele para sempre.

Hoje sei que a Maria Gabriela me fez o mesmo pedido, embora não o expressando desse modo. Corria o ano de 2007. Depois de termos lido e passado, de Maio a Setembro, a versão final de Os Cantores de Leitura, terminando assim um trabalho que, pela companhia, aliviava a sua dor de estar só, uma manhã, na casa de Sintra, a Maria Gabriela pediu-me para abrir os armários das estantes do corredor e tirar tudo o que lá estava dentro. Disse-me: São os cadernos onde sempre escrevi, donde saíram os meus livros. Podemos começar a lê-los, a copiar o que não foi publicado. Vamos dar-lhes um lugar. Pode ser aquele armário que agora está cheio de copos. Fica a ser ‘o armário dos cadernos’. Começaremos a ler as duas o caderno n.º 1 e vais passando o que não entrou em livro. Temos aí muito trabalho a fazer. Já tinha pensado num título para o novo livro que viesse a escrever. Livro de Horas. Pode ser esse o título para o que sair do primeiro caderno. Podemos começar no próximo dia. E começámos.

Ao reler estas e muitas outras anotações de trabalho, de leitura e reescrita dos textos, apontadas por mim em dois pequenos cadernos, capa de papel kraft, verifico que as suas datas se situam entre Maio de 2007 e Fevereiro de 2008. Seria este o último mês das minhas idas a Sintra tendo a companhia da Maria Gabriela. No final desse mês de Fevereiro, a leitura em voz alta das 370 páginas do caderno n.º 1 chegava providencialmente ao fim. A última página fora lida à minha única ouvinte. Escassos dez dias nos separavam do dia 3 de Março de 2008. Leio uma das minhas últimas anotações: A Melissa passa entre nós e diz qualquer coisa, tão resignada quanto eu. Continuaremos, sabe-se lá até quando, nesta casa de Sintra. Nós e o Texto. Depois, será ele a indicar-nos o caminho.

Há um corredor de claridade que persiste nos meus olhos quando evoco esse momento inesquecível da revelação dos cadernos de escrita e a visão do rio que eles constituíam, espalhados no chão do corredor na casa de Sintra, quando saíram dos armários das estantes. Corredor de claridade que me parece ser a dobra daquele outro que a Maria Gabriela refere, o da casa dos pais, quando escreve «_______ eu nasci em 1931, no decurso da leitura silenciosa de um poema». Era o dia 24 de Novembro. Ambos falam do nascimento da escrita e do ser que a viveu. Gosto de sentir que os dois se fundem no corredor de claridade da casa Espaço Llansol, também em Campo de Ourique, por onde se entra continuamente na leitura, por ser a casa onde acolhemos todos os que, connosco, vêm ler e pensar o texto llansoliano. Mas outros corredores se abrem a partir de hoje: os desta Casa-mãe que preserva a memória e que, a partir de agora, será a guardiã do espólio de Maria Gabriela Llansol, o seu Lugar.

A noção de Lugar sempre foi importante para a Maria Gabriela, que o definia como um Encontro primordial. Ainda que aconteça num determinado espaço, ultrapassa-o geográfica e temporalmente. Foi a partir do Lugar llansoliano que entendi melhor o pedido lançado a Montaigne: «Dá-me um lugar». Há um espaço físico, material, onde se cuida e se preserva a memória. Mas há também o lugar imaterial, o do testemunho, onde as figuras nascem para a sua sobrevida. Este é o lugar do encontro que depende de nós. «Não fiques a recordar; se a amas, trá-la de volta», escreve a Maria Gabriela, num diálogo com Jade, em Onde Vais, Drama-Poesia? Parece-me ser este o outro sentido da frase de La Boétie.

 

II.

Nas últimas páginas do Diário 3. Inquérito às Quatro Confidências, Maria Gabriela Llansol enuncia um pequeno diálogo com Vergílio Ferreira:

 

O mundo existe e o Vergílio morreu, mas

mais uma palavra me pede a escrita.

 

— Gabriela!

— Sim!

— Ver-nos-emos face a face, daqui a milhões de anos.

— Sim!

— Faça a sua parte! Sem medo, sem medo, sem medo.

 

Em momentos de desânimo, sempre me lembrei destas palavras. Sabia que também eu teria de fazer a minha parte, e sem medo. Como cada um de nós. «O caminho caminha», como escreveu a Maria Gabriela, e essa parte que me coube em sorte chega hoje aqui. Essa, porque a outra, a do lugar da toalha de leitura continuará o seu percurso em mim, é como um respirar, é o que com humildade sinto que posso ir fazendo – trazer os outros ao Texto. Para isso, guardo sempre comigo esta frase da Maria Gabriela: «Sejamos singulares e totalmente desprovidos de importância».

Agradeço a todos os que, com a sua força inabalável e uma amizade incondicional, me ajudaram a fazer este caminho e tornaram mais leve esta causa amante, sem esquecer a densidade e a beleza da sua raiz. Só podemos antever a direcção do gesto pela firmeza com que seguramos o lápis. Nunca saberemos o que pode um corp’ a screver nem a linhagem que ele dará à escrita.

Lançar uma semente à terra e passar testemunho desenham o mesmo gesto de desprendimento. Creio que a despossessão é uma das formas do conhecimento amativo, aquele que a Maria Gabriela atribuía a Luís Comuns, o poeta.

 

III.

Na última parte do livro Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, sentada junto à grande árvore do Jardim da Parada em Campo de Ourique, depois da morte de Augusto Joaquim, o ausente presente na copa da árvore, Maria Gabriela estabelece com ele um diálogo, apaziguando o processo do seu luto.

São essas palavras que aqui evoco, desejando, a partir de hoje, ouvir a sua dobra na voz da Maria Gabriela, para que também eu, sempre que olhe as árvores da Biblioteca Nacional, me sinta igualmente apaziguada:


Ouço-o escrever, na folha de leitura permeável ao vento:

 

Esta árvore é um metrosideros.

Eu estou bem.

 

Biblioteca Nacional, 24 de Novembro de 2025

[na assinatura da doação do espólio de Maria Gabriela Llansol]

Maria Etelvina Santos

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