Antes de virar livro, os textos aqui contidos foram debates em torno do tema do ensaio e do ensaísmo, fruto do encontro virtual (em tempos pandêmicos) entre pesquisadoras e pesquisadores brasileiros e portugueses no ciclo «Campo Aberto: conversas sobre o ensaio», que teve duas edições, em 2020 e 2021.
Neste primeiro quarto de século, é certo que vivemos tempos intranquilos. Mas que época, em seus próprios termos, não se compreendeu assim? Vivemos tempos cheios de incertezas, e isso, de certo modo, nos desconcerta. Mas não seria possível ima-ginarmos a vida histórica e social como constitutivamente incerta, por que sempre aberta às ações dos mais diversos corpos e agentes? A angústia do que é desconhecido e instável poderia ser, assim, repensada. Os tempos incertos são também épocas plenas de expectativas e de possibilidades. Nada está definitivamente decidido — nada está de todo perdido.
Nossos tempos são difíceis — no entanto, essa frase soa como uma frase de sentido esvaziado, como um clichê. Um molde sobre o qual tantos tempos e lugares produziram a própria imagem: a poesia e o pensamento de diferentes épocas e povos. E para isso inventaram as suas formas de dizê-lo. Dizer que um tempo é difícil, então, é dizer muito pouco sobre a sua sin-gularidade. Nossos tempos são ver- tiginosos e de nervos à flor da pele. Tudo acontece com uma veloci-dade tempestuosa. Talvez por isso também nossos tempos produzam pensamentos intranquilos, cheios de incerteza.
Jessica Di Chiara e Rita Basílio]