Eis um livro surpreendente, inclassificável, mas necessário.
Tudo lhe serve para prosseguir impetuosamente a escrita: exemplos da física, da matemática, da paleontologia, da biologia, mas também da filosofia e da literatura. Logo no início do livro anuncia que «as palavras são uma ameaça à liberdade do pensamento». De facto, este é aprisionado por sistemas, sobretudo sistemas ou disciplinas, enleando-se também no palavreado geral. Mas um livro escreve-se com palavras: para além delas, visa-se algo difícil de capturar na rede de borboletas que elas tecem; sendo difícil de apresentar, é essa mesma rede que permite intuir o que está em causa.
[…]
É um pensamento plástico: implica desenlaçar e enlaçar tudo o que existe e permite pensar. É isso que fascina na escrita ágil de João Carrilho: a radicalidade da associação, numa voluptuosidade de exemplos que revela um pensamento sensível e decidido. […] Quando a IA começa a ganhar peso decisivo, aliviando-nos da escrita banal, percebe-se que a escrita tenha de mudar, tornando-se mais surrealista, plástica, pulsante.
Uma nova escrita que reconhece a impossibilidade de pensar o todo, mas que se quer atenta ao acontecimento que se perfila através dele. O acontecimento da vida na Terra parece ainda seguir o seu caminho; pressente-se que algo de decisivo está por acontecer.
[José A. Bragança de Miranda]
Apoio do CICANT / FCT.
Capa com transparência intervencionada por António Palolo.