Não deve dizer-se que também o impossível acontece, mas, antes, que só acontece o impossível. Porque, se não é impossível, então não acontece, não é um verdadeiro acontecimento.
Impossível diz-se em duas diversas acepções. 1) Há o sentido comum do termo, o impossível em acepção lógica, como aquilo que é contraditório no conceito, impossível = inconcebível. Exemplos: um círculo quadrado, um corpo inextenso, uma forma informe. É o impossível como impossível, não-possibilidade de essência ou contra-senso, como o que não se pode conceber, nem, portanto, ser, em nenhum mundo possível. Esse impossível lógico, contradictio in terminis, implica pois, evidentemente, o impossível ontológico: da impossibilidade lógica de um ser deriva a sua impossibilidade real, a impossibilidade de ser: inconcebível = inexistível.
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2) Há uma outra acepção para o impossível. Uma acepção propriamente alógica e extra-ontológica, em que se trata de pensar o impossível, não em relação antinómica com o possível, mas numa relação paradoxal de implicação, tal que o impossível já não seria a negação a priori (por definição) do possível mas, pelo contrário, a sua afirmação a posteriori (por realização). Trata-se, por outras palavras, de pensar o impossível já não como o impossível mas, antes, como o impossível, como uma certa possibilidade do impossível, inscrita no impossível.
[Sousa Dias]