Uma história à Swift, soprada por uma ligeireza enlouquecida.
A conversa tinha saltado de tema a tema, insistido em maldosas apreciações, deitando abaixo aquele poeta que nunca sairia dos seus desastres, quando uma razão qualquer a desviou para a forma — a forma que sobressai e triunfa, ao ponto de esmorecer ou passar a secundárias outras qualidades que têm, em geral, maior peso na literatura. Foram dados exemplos: franceses, portugueses, ingleses. E nessa altura, Luiz Pacheco perguntou: «Já leram um curioso livro, Lord Algernon, de um suíço chamado Pierre Girard? O que lá se conta vale um pouco menos do que a forma habilidosamente dominada para o contar.»
Na antiga livraria Buchholz, nesses dias sob o domínio de uma avinagrada e vetusta fräulein que parecia odiar quem lhe comprasse um livro, fiquei no dia seguinte a saber que Lord Algernon era dado como inexistente no mercado livreiro francês; e só um daqueles acasos, frequentes em Paris e nos alfarrabistas do Sena, fez com que anos mais tarde eu lhe deitasse a mão num envelhecido exemplar da editora Kra e da sua primeira edição de 1925. Luiz Pacheco tinha, de facto, razão: o jovem Lord Algernon impunha-se página a página, atrás de todo um espectáculo formal; mas ao invés do que habitualmente acontece quando a formalidade é referida em relação a um texto, a sua não procurava requintes estilísticos nem requintadas disciplinas gramaticais; só revolucionava, servida por uma invulgar semântica e pelo singular talento de um criador loufoque de imagens inesperadas (às vezes voluntariamente desatinadas), a servirem as banais realidades do mundo.
A sua história, que através das páginas corre como um Swift soprado por essa ligeireza loufoque (não há em português uma palavra que concentre com tanta precisão a ideia de um comportamento extravagante e empurrado por sugestões estranhas à sensibilidade do homem comum), arrasta o leitor e surpreendendo-o com imagens divorciadas da realidade convencional, impossíveis num escritor que se obrigue, nas suas ficções, a respeitar a lógica bem comportada e serena que a todos nos rodeia e dirige.
[Aníbal Fernandes]