Raymond Cousse: «Falar da obra de Bove é falar sempre de outra coisa. É com a afectação da inocência que Bove descreve tantas realidades horríveis, até mesmo o horror latente de toda a realidade.»
Em Agosto de 1944, depois de quatro anos de domínio nazi, Paris foi libertado. E dois meses mais tarde Emmanuel Bove foi visto nas suas ruas, regressado da Argélia no péssimo estado físico que só iria consentir-lhe mais dez meses de uma vida dia a dia vivida em precárias circunstâncias. Não se sentia com forças para gozar os tão ansiados prazeres que a liberdade reconquistada teria podido conceder-lhe. O romancista Enrico Terracini, fugido da Itália de Mussolini, viu-o a vaguear numa cidade que ele sentia distante e já não reconhecida pelos seus afectos: «Volto a ouvir uma voz serena, sensata, que mascarava com pudor os verdadeiros sentimentos do homem, o seu rosto um pouco à Pitoëff que emergia do tempo, magro sob uma cabeleira separada por um risco ao lado. As suas feições dão firmeza a um perfil, evocam uma fisionomia mas não conseguem restituir a real essência da sua presença. Tinha chegado de Argel com a sua mulher, companheira fiel de uma vida posta sob o signo dos humildes, dos modestos, dos não-heróis. Recusava o barulho que rodeia a celebridade. Não queria ser mais do que um homem de consciência que procurava no seu coração a verdade e a poesia da vida. […]»
Estes sete contos de Emmanuel Bove foram, em 1928, reunidos num volume. O primeiro, «Henri Duchemin e as suas sombras», dá o título ao livro e adquire neste conjunto outro sentido; porque estas «sombras», que começaram por ser apenas de Duchemin quando este conto existia isoladamente (foi a primeira obra escrita por Bove), ao assumirem-se como um título que precede outros seis contos fazem-nos entender que todas as suas personagens principais são «sombras» de Duchemin; prolongam-no com os seus desejos incertos e as suas situações sem saída, todas disfarçam sob uma calma aparente uma subtil crueldade que se faz, assim diluída, a inconfundível marca de Emmanuel Bove.
[Aníbal Fernandes]