Uma história de animal com a sua superior animalidade perturbada pela baixeza dos homens.
Nos seus livros a mulher não se furta a um incitamento dos sentidos muito feminino, o que fez André Maurois escrever: «Ela representa qualquer coisa única. Foi a primeira mulher a escrever como mulher. George Sand, essa, tinha temas de homem.»
Esta Colette não esmorecida por anos de casamentos pouco entusiasmantes, começou a publicar ficções enaltecidas pela crítica e pelos seus leitores; foi autora de sucessivas obras que perduram com assinalável evidência no mundo editorial francês, e entre elas não poderão deixar de citar-se, pelo menos, Chéri, La Fin de Chéri, La Vagabonde, Le Blé en herbe, La Seconde, La Naissance du jour e, claro está… A Gata, publicado em 1933.
É curioso que neste mesmo ano tenha sido publicado na Inglaterra outro livro — o Flush de Virginia Woolf — com a mesma singularidade de um animal posto no centro de um tema. (Dez anos antes tinha aparecido Bambi, Eine Lebensgeschichte aus dem Walde, do austríaco Felix Salten e transformado em 1942 numa longa metragem de desenhos animados produzida por Walt Disney. Só era, no entanto, uma história de animais com a sua superior animalidade perturbada pela baixeza dos homens.) O texto de Flush, desviado explicitamente da novela para se intitular «biografia», utilizava o cocker spaniel de Elizabeth Barrett Browning como pretexto literário e para dar largas, num brilhante exercício de escrita, à imaginação de um mundo humano com subtilezas sentidas pelos olhos de um animal. Colette, essa, imaginava na sua Gata o animal doméstico dotado de seduções capazes de inspirar um amor rival e triunfante sobre as exclusividades instituídas pelo amor entre cônjuges, de suscitar um ciúme ameno mas intranquilo e, em maus momentos, até susceptível de resvalar a um desejo de crime.
Colette fez uma tentativa de paz conjugal com mais um casamento. Em 1935 quis curar a desilusão de Jouvenel com Maurice Goudeket, que também não foi satisfatório. Surge então a Colette solitária e sentada com gatos no colo a uma janela do Palais-Royal, tolhida por uma artrose na anca e a mexer- -se pouco ou quase nada, a falar de janela para janela com Cocteau; a que nos diz em La Vagabonde: «A solidão… a liberdade… o meu trabalho… a nova preocupação de ser eu a ganhar para comer, para o meu vestido, a minha renda… Foi isto, de imediato, o que me calhou, mas também a desconfiança selvagem, o asco ao meio em que vivi e sofri, um estúpido medo do homem, dos homens e também das mulheres»; e a que também escreve esta frase em Paysages et portraits: «a ilusão da liberdade vale a liberdade.»
[Aníbal Fernandes]