Filho do seu avô e irmão dos seus tios…
Uma sobreposição de incestos…
O papel de uma purificação.
O escritor também jornalista, também fotógrafo de tripé e cabeça escondida pelo pano negro, foi repórter fotográfico do jornal Le Matin; através dele conhecem-se hoje imagens da Tripolitânia conquistada pelos Italianos, dos incidentes diplomáticos tunisinos. Foi depois fotógrafo para a revista L’Illustration, e ainda passou a fotógrafo do exército francês e às reportagens que hoje nos mostram Salónica, a Síria e o Egipto durante a Primeira Guerra Mundial. Mas toda esta actividade fotográfica foi derrotada por fortes crises de um paludismo ainda mal combatido pela medicina. Gaston Chérau, vítima de sezões que o quinino só tornava, com apitos nos ouvidos, mais suaves, restringiu-se às tranquilidades caseiras e sentadas do escritor.
Da sua extensa obra literária podem hoje recordar-se alguns títulos que escaparam menos mal à trituração das modas, das trombetas redireccionantes, das estratégias editoriais; escolhamos cinco: La Maison de Patrice Perrier (1924); La Volupté du mal e Le Flambeau des Riffault (ambos de 1930); Celui du Bois Jacqueline (1932); e a antecedê-los este O Monstro (de 1913), a sua obra hoje mais lida, com particularidades que o desviam da central atitude da literatura perante o incesto. O seu «monstro», vítima inocente de um acasalamento que o fez filho do seu avô e irmão dos seus tios, repudiado com a sua mãe por uma provinciana França novecentista, sublima um incesto com outro duplamente incestuoso, dando a esta sobreposição de incestos o papel de uma purificação. Gaston Chérau sai-se com habilidade desta história que passa pelos perigos de uma promiscuidade incestuosa e por um tema que roça sem maiores desastres pelo melodrama.
[Aníbal Fernandes]