Um Robinson Crusoe feminino.
Esta Suzanne, náufraga numa ilha deserta, é um Robinson Crusoe feminino. Mas conhecida assim, através de uma prosa de Jean Giraudoux, é desde logo a certeza de que o leitor, mesmo o mais treinado pela diversidade dos estilos, será confrontado com invenções verbais que lhe vão parecer alucinadas, surpreendido por conscientes fugas à lógica e ao senso do homem comum.
Jean Giraudoux, um dos notáveis escritores franceses do princípio do século XX, definiu-se como «um ilusionista sem o material dos ilusionistas» e afirmou-se no exercício desta prestidigitação com surpresas formais e de pensamento que tanto entusiasmaram como incitaram aos mais injustos juízos. Jean Cocteau, por exemplo, deixou escrito no seu Diário que «o estilo de Giraudoux é como o cabelo artificialmente ondulado: não tem um frisado natural.» Detestado por Léautaud e Céline, admirado por Proust, este Giraudoux indiferente às vozes que o avaliavam cultivou com audácia as preciosidades da sua riqueza verbal, a sua abundância de metáforas, o seus períodos e parágrafos a perder de vista, os ritmos e as suas musicalidades, as suas incongruências, uma erudição às vezes tocada por duvidosa fantasia, uma irresistível vocação para o virtuosismo.
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Ao morrer em 1944 com uma idade que apenas chegava aos sessenta e um anos, escrevendo com tanta energia, absorvido tão intensamente pelo seu papel nas culturas literária e teatral, Giraudoux talvez não tenha conseguido cumprir o que fez dizer à personagem principal da sua peça Ondine: «Como é mau fazermos acelerar a vida! Suprimem-se assim os dois elementos salvadores: a distracção e a preguiça.»
[Aníbal Fernandes]