O mar é poder que transcende o homem, tanto como paisagem que se admira. O que sobressai desta última relação com o mar, tal como com outros constituintes da Terra e da Natureza, é a necessidade de o «enquadrar», como «vista» e até como espectáculo.
O trabalho de João Grama reflecte sobre o mar, não apenas como realidade a contemplar, mas sobretudo como espaço habitado por dinâmicas sociais, humanas e locais. Sem perder uma dimensão contemplativa, Grama parte da relação dos pescadores da costa vicentina com o mar, da realidade com essas comunidades lidam no dia a dia.
Em articulação com a exposição As leis próprias do mar, distante do mundo dirigido pelas leis da terra, que teve lugar no Convento dos Capuchos, em Almada, entre Abril e Setembro de 2021, o presente livro documenta várias séries de trabalho desenvolvidas pelo artista e criadas num período de cinco anos. Com efeito, entre 2011 e 2016, João Grama acompanhou, com grande proximidade, a vivência dos marisqueiros da orla costeira de Vila do Bispo e Sagres, tendo desenvolvido um trabalho que não se circunscreve à antropologia ou à etnografia, embora se relacione com as abordagens que as caracterizam. Efectivamente, Grama apropria-se das ferramentas destas disciplinas para construir um projecto sobre a memória — e a sua persistência e visibilidade —, exaltando práticas vernaculares e arcaicas em desaparecimento e que mantêm uma estreita conexão com culturas locais, com a natureza e com modos de sobrevivência. Apesar de Portugal ser um território essencialmente marítimo em termos de fronteiras, que se afirma estrategicamente sob o lema «Portugal é mar», e de muitas das suas romarias e locais de carácter religioso estarem associadas ao mar, existe uma fraca atenção a este mar e à sua costa por parte de etnólogos e artistas. Neste sentido, os diversos trabalhos de João Grama em torno da costa vicentina constituem uma abordagem original e pertinente, focando-se não no mar ou nos homens que delem vivem, mas na interacção entre ambos.
[Margarida Brito Alves, Margarida Medeiros, Filipa Oliveira]
Edição bilingue: português-inglês.
Com o apoio da Câmara Municipal de Almada.