Diogo Bolota: «Entendo que o trabalho de Paulo Quintas parte de um desenho preliminar imaginado, mesmo que inexistente em papel, mas que ele deseja realizar. Esta visualidade escapa às nossas mãos. Não escapa às mãos do Paulo quando cria esses ídolos, mesmo que na sua vida diária não se cruze fisicamente com quase ninguém.»
Este livro foi publicado por ocasião da exposição Primeiras Águas, de Paulo Quintas, com curadoria de António Gonçalves, realizada na Galeria Ala da Frente em Vila Nova de Famalicão, de 27 de Fevereiro a 31 de Maio de 2026.
Ao longo da história, a pintura introduziu a questão do tempo de variadas formas — o ligeiro apodrecimento das frutas de Caravaggio, que alertava para a efemeridade da beleza, as «vanitas», ou «cogito mori», que assinalavam a transitoriedade da vida humana. Por outro lado, a poética da ruína própria do romantismo, ou, no contexto moderno, as produções efémeras, da instalação à performance, questionaram directamente a noção de perenidade da própria arte. A questão do tempo surgiu-me quando vi no atelier da praia de Santa Rita as grandes pinturas amarelas que Paulo Quintas traz para esta exposição por uma memória imediata dos muros envelhecidos das casas do Alentejo, onde camadas de cal se sobrepõem e a passagem dos anos vai martirizando superfícies, deixando ver a vários níveis anteriores pinturas nas paredes, desconformemente degradadas, resultando num mapa da memória tanto da sua criação como do desgaste do tempo e do abandono. Nestas enormes pinturas podemos descortinar restos de antigas formas de sólida geometria usadas frequentemente por Paulo Quintas, traços novos verticais que organizam a sua estrutura, mas também as sucessivas acções de encobrimento dessas formas- -base e de desocultação, por consecutivas camadas apostas e retiradas por diferentes métodos de erosão, controlados e aleatórios, que transformam a imagem final numa espécie de retrato dos vários tempos de execução da obra.
[…]
É a olhar demoradamente que a pintura de Paulo Quintas nos obriga, por certo pelo resultado da obra acabada, mas também pelo que dela se desprende de cumplicidade com o seu processo de criação, como se os tempos da sua criação passassem em movimento como um filme diante dos olhos, mostrando os gestos de aposição, de desgaste, de equilíbrios entre a estrutura e uma febril construção das superfícies no trabalho da matéria densa das imagens.
[Joaquim Oliveira Caetano]
Com a Galeria Ala da Frente.