É na maré baixa que começam a aparecer as formas
Especificamente concebida para o Salão da Sociedade Nacional de Belas-Artes, a exposição quarenta dias sem deus reúne um amplo conjunto de obras, maioritariamente inéditas, que descrevem um arco temporal compreendido entre 2018 e 2026.
Entre dúvida e desvelamento, entre opacidade e revelação, a exposição toma a mais antiga e a mais bela sala de exposição de Lisboa para propor uma reflexão sobre a experiência do tempo, da fragilidade e do desaparecimento, mas também do reflorescimento e do recomeço, um topos recorrente da arte ocidental.
O título da exposição, de ressonância bíblica, evoca o jejum e a purificação como caminhos para uma nova etapa.
As quatro séries de trabalhos aqui presentes relacionam-se por confluência e por contraste. Contraste de escala, de técnicas e de materiais; confluência de temas, de espírito e de ânimo.
Entre as matérias aquosas de Mensageiro Cósmico e telúricas das caixas negras de Vazante, a grandiloquência desesperadamente romântica de Degelo, anunciando um mundo em dissolução, e as imagens veladas de quarenta dias sem deus, desafiando as certezas da visão humana outrora demasiado segura da sua inexpugnabilidade, é toda uma cultura em crise que a artista revisita, passando pelo passado para retratar um presente em crise de futuro.
Num espaço centenário, atravessado por tantos corpos e por tantas crises, mas que, apesar de tudo, persevera, saibamos interpretar os sinais da nossa precariedade através da densidade temporal das manifestações artísticas, cujos saberes, arcaicos e contemporâneos, encerram poderes de regeneração e de cura.
[Nuno Faria]
Este livro foi publicado por ocasião da exposição quarenta dias sem deus, de Inez Teixeira, com curadoria de Nuno Faria, realizada na Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa, com o apoio da Fundação Carmona e Costa, de 29 de Maio a 11 de Julho de 2026.
Edição bilingue: português-inglês.
Com a Fundação Carmona e Costa.