No trabalho de Cristina Robalo, no que vemos, ouvimos e tocamos, reconhecemos algo que reforça a ideia do desenho como ligação entre uma procura e um fazer, assente no intercâmbio do olhar com a mão, e do pensamento com a intuição.
Focadas na elasticidade do que está em transformação, as suas obras perscrutam os limites da percepção, guiando a atenção para o que se revela e para o que se esconde (a cor dos recortes e o papel obscurecido), para o que desponta e para o que perece (os bustos que se assomam à nossa frente e as raias secas que se encerram em imagens de pendor taxonómico), ou para algo que habita um hiato entre a vida e a morte (os bustos são instrumentos que riscam e se gastam, e as raias ressurgem como matriz que origina os desenhos). Dir-se-ia que o trabalho da artista reinventa o estudo científico e a sugestão especulativa, em sobreposição poética, num lugar desconhecido.
Num lugar longínquo, inesperadamente familiar, que partilha a raiz de uma profundeza ancestral, as obras de Cristina Robalo cruzam o imaginário de uma natureza geográfica (um lugar no fundo), um carácter material (a «modelação» do desenho) e a especificidade de uma condição pessoal (a interioridade de uma busca). Reagindo à possibilidade do escrutínio, tudo se afirma em transformação; tal como o desenho, tudo se reinventa perante a hipótese de ser estudado, decifrado e compreendido.
Podemos então dizer que, numa aproximação delicada à análise e ao encantamento, a artista trabalha uma ideia de transformação em que, por interlocução hipnótica, tudo se cruza entre a gravidade e a suspensão.
[Sérgio Fazenda Rodrigues]
Este livro foi publicado por ocasião da exposição antes de subir à tona, de Cristina Robalo, realizada na Fundação Carmona e Costa, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, entre 7-2 e 9-5-2026.
Edição bilingue: português-inglês.
Com a Fundação Carmona e Costa.