Franz Kafka: «Como a floresta respira ao luar! Ora se encolhe e fica pequena, compacta, e as árvores lançam-se para cima, ora alarga, transforma todas as encostas num tapete liso, é mato rasteiro, é ainda menos, é uma miragem nevoenta e longínqua.»
Este livro foi publicado por ocasião da exposição anima mundi – o dia seguinte, de Inez Teixeira, com curadoria de António Gonçalves, realizada na Galeria Ala da Frente em Vila Nova de Famalicão, de 31 de Outubro de 2026 a 31 de Janeiro de 2027.
A série de grandes desenhos que dá nome à exposição, «Degelo», materializa, inefavelmente, o invisível mas palpável labor do tempo que tudo dilui e destrói. É este o tema e o modo da exposição, e desta produção — também o seu tempo, no sentido musical da palavra, a sua duração.
Fenómenos, energias, transitoriedade, comércio com o acaso. Como se, através do desenho, o desenhador, qual oráculo ou necromante, convocasse as forças do invisível e do indiscernível e as fizesse manifestar à superfície da folha de papel, fundada como território de emergência. De que outra forma, senão como projecto de prestidigitação — no sentido de esconder para revelar —, fundado na experiência pela experiência, se explicaria a singularidade da produção em desenho de Inez Teixeira.
Há uma latente e encoberta circularidade na performatividade e na espiritualidade que dá corpo, que faz existir, que coloca no mundo, no nosso espaço vital, estes desenhos: o papel, a cera, a grafite, e outros materiais convocados, são propriamente os troncos de árvore que emergem e existem à superfície do papel. O que poderá ser então, aqui, neste caso, o desenho? Talvez uma metamorfose, uma luminosa e atmosférica transformação; um processo poético de ressignificação, uma perturbante forma de fazer alteridade — o desenho não é aqui um espaço de representação, mas de revelação; uma forma de conduzir forças interiores que, misteriosamente, nos pertencem e transcendem.
[Nuno Faria, Degelo, Documenta, 2022]
Excertos de Fernando Pessoa, Franz Kafka e Teixeira de Pascoaes.
Fotografias de António Jorge Silva e Inez Teixeira.
Com a Galeria Ala da Frente | Município de Famalicão.