That’s the trouble — a sex symbol becomes a thing.
I just hate to be a thing.
— Marilyn à Life, dois dias antes de morrer
A Ninfa, cuja função maior, como nos ensinou Warburg, é tornar visíveis os emblemas da beleza, da vitalidade e da paixão erótica, foi uma incontornável figura da Antiguidade, quer na literatura (mitológica, filosófica e poética) quer nas artes, e sobreviveu, secretamente incógnita, durante séculos. Ela reapareceu no Renascimento, de novo figurada nas artes e nas letras, associada à redescoberta da Antiguidade.
O seu reaparecer no século XX iria fazer-se com o cinema, já que foi o cinema que permitiu repensá-la e, sobretudo, revê-la, sob a forma da imagem-movimento. A Ninfa cumpriu, no século XX, o que fora um desígnio da Antiguidade depois redescoberto pelo Renascimento e agora actualizado: o que Botticelli sugeriu foi, assim, amplificado por Hollywood.
Se for como penso, deveremos procurar entender de que modo essa figuração reapareceu no contexto que é o nosso, contemporâneo, pelo menos desde a Modernidade e até hoje, para poder traçar-lhe uma arqueologia: entender, na luminosa e enigmática figura de Marilyn, um exemplo da nachleben da Ninfa — e uma vez que a nachleben (sobrevivência, imagem póstuma) não significa repetição, mas reinscrição em um novo contexto — na época contemporânea é o propósito deste ensaio.
[Bernardo Pinto de Almeida]
Co-produção com o Município do Porto.